terça-feira, 16 de outubro de 2018

Beat Generation em Paris!


Se for a Paris faça uma visita à Livraria Shakespeare & Co, mesmo ali à beira do Sena e entre no espírito e na cultura de uma época, ao encontrar um dos mais belos espólios da Literatura Beat, incluindo as duas versões do famoso rolo de "On the Road" de Jack Kerouac, recordar o famoso poema "America" de Allen Ginsberg, mergulhar em "Naked Lunch" de William Burroughs e descobrir esses Paraísos que foram o México e Tânger para esta geração, que o diga Paul Bowles (um homem que pela idade já não pertencia ao movimento), mas que sempre foi reconhecido por todos como esse pai com quem gostavam de conversar e trocar experiências e, como não podia deixar de ser, não se esqueçam também de visitar a Biblioteca François Truffaut (dedicada inteiramente ao cinema), no novo Les Halles e aproveitem para ver o famoso filme de Robert Franck, sobre a Geração Beat, que também se encontra por lá disponível. Como o Outono chegou é natural que já não fique na fila para entrar na Livraria :-)

Nota: Esta livraria não tem nada a ver com a célebre "Shakespeare and Company" de Sylvia Beach, que funcionou em Paris de 1919 a 1941, em breve a iremos "visitar".

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Jean Cocteau - "A Voz Humana! / "La Voix Humaine"


Jean Cocteau
"A Voz Humana" / "La Voie Humaine"
Assírio & Alvim - Pág.46
1999

“A Voz Humana” será possivelmente a mais célebre peça de Jean Cocteau, um desses monólogos repletos de arte e engenho, que levou actrizes como Ingrid Bergman, Liv Ullman, Simone Signoret, Anna Magnani, entre muitas outras a representarem-na nos palcos; já em Portugal, será a actriz Maria Barroso a encomendar ao escritor Carlos de Oliveira a tradução da peça de Jean Cocteau e que a irá levar ao palco, mas o regime de então rapidamente proibiu a peça de Jean Cocteau.

Por outro lado, existiu uma geração que descobriu este belo texto quando viu Carmen Maura em “A Lei do Desejo” do cineasta Pedro Almodóvar e para o conhecermos melhor temos este belo livro editado pela Assírio & Alvim, que recupera a tradução feita por Carlos de Oliveira e que nos oferece uma magnifica introdução do poeta Gastão Cruz, que nos situa no tempo esta famosa peça de Jean Cocteau, que foi mal recebida pelo grupo surrealista, mas o melhor é lerem “A Voz Humana” de Jean Cocteau e verem o monólogo por Ingrid Bergman, numa adptação televisiva.

Nota: Em cima Jean Cocteau fotografado por Herbert List, 1949.

domingo, 14 de outubro de 2018

Livros & Leituras: "Place des Vosges"


Situada no célebre Bairro do Marais, a Place des Voges, a praça mais antiga de Paris, foi construída segundo os desejos de Henry IV e levou alguns anos a ser edificada (1605 a 1612), oferecendo-nos uma geometria única e perfeita (140 m x 140 m num quadrado perfeito), em que os edifícios rectilíneos enquadram o belo jardim convidativo para um pequeno descanso, em que é possível repousar a ler um livro ou simplesmente deixar a vida passar tranquilamente, numa dessas pausas que tanto necessitamos, especialmente os Parisienses, que com a passagem dos anos correm cada vez mais de segunda a sexta. Ao passearmos ao longo da Place des Vosges são inúmeras as galerias que nos convidam a uma visita e nos oferecem obras surpreendentes, assim como a famosa casa do escritor Victor Hugo, um desses locais que respira literatura à medida que vamos percorrendo as diversas divisões que constituíam o seu refugio literário, e mesmo ali ao lado poderá sempre visitar o célebre Museu Picasso e esperar que o famoso Museu Carnavalet reabra as suas portas (encontra-se encerrado até ao final de 2019 para obras de renovação) e não se esqueça de reeditar o livro que Lawrence Durrel escreveu sobre ele, uma das suas obras literárias que continua a fugir-nos entre os dedos. Por outro lado a Place des Vosges revela-se como um dos mais belos e tranquilos locais de Paris para se estar na companhia de um livro.

Uma das obras expostas 
numa das galerias existentes 
na Place des Vosges, em Paris. 
(Foto PN Lima)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

"Robert Doisneau 1912 - 1994" - Jean-Claude Gautrand


"Robert Doisneau - 1912 - 1994"
Jean-Claude Gautrand
Taschen - Pág.192

Há imagens que trazemos na alma para sempre e “Le Baiser de l’Hôtel de Ville de Paris” de Robert Doisneau é precisamente uma delas. Ao longo da sua carreira, este célebre fotógrafo nascido em Gentilly, França, em 1912, ficou conhecido pelos seus instantâneos do quotidiano, elegendo desde muito cedo a cidade de Paris e os seus habitantes como protagonistas das suas imagens, captando a inocência e a fragilidade, com uma ternura e um amor únicos e inesquecíveis. Até que um dia, no ano de 1950, Robert Doisneau reparou numa jovem actriz chamada Françoise Bobbet, que beijava de forma apaixonada o seu namorado e com a sua habitual modéstia e timidez, o famosos fotografo abordou os dois jovens e pediu-lhes para repetirem esse beijo mágico para a célebre revista Life, tendo sido escolhidos três locais na cidade de Paris: o Hôtel de Ville, a Place de la Concorde e a Rue de Rivoli, sendo o beijo dado nas imediações do Hôtel de Ville o eleito pelo fotógrafo, o qual se irá tornar numa das mais famosas fotos de toda a História da Fotografia, por sinal uma imagem que se encontra reproduzida numa das paredes da minha sala.

Robert Doisneau

Quando, muitos anos depois, surgiram diversas pessoas a afirmarem que eram os protagonistas do célebre beijo, Robert Doisneau decidiu contar a verdade dos factos, ou seja que o beijo tinha sido encenado e conhecia os nomes dos protagonistas e de imediato surgiram os “suspeitos do costume” a afirmarem o seu escândalo pelo facto de se tratar de uma fotografia encenada, mas sem qualquer razão, porque se pensarmos em todos esses beijos que nos aquecem ou aqueceram o coração nas salas de cinema, quando vimos os filmes clássicos, teremos sempre que pensar quantos "takes" foram feitos dos famosos beijos de Grace Kelly e Ingrid Bergman a Cary Grant (um homem com sorte!), ou Sean Connery a Tippi Hedren, para citar apenas os mais famosos, sempre com a mesma dose de paixão, terminando o eleito por ficar registado na celulóide da nossa memória.

Agatha Christie "versus" Hercule Poirot!


Muitas vezes se diz que as palavras são como as cerejas, quanto mais se comem mais se gosta delas e muitas vezes o mesmo sucede com os livros, especialmente quando descobrimos no protagonista alguém que nos seduz e nos leva a querer ler mais sobre ele ou as suas aventuras no universo literário. 

Como sou um ser humano com qualidades e defeitos, também eu tenho o meu herói favorito no universo literário e ele, ao contrário do que se poderia pensar, não é americano, nem francês, mas sim belga apesar de muitas vezes ser visto como “esse maldito francês bisbilhoteiro” ou “franciú” como alguns já lhe chamaram, incomodados com as suas investigações. 

É verdade, estou a falar de Monsieu Hercule Poirot, esse genial detective belga criado por Agatha Christie e cujos livros já li e reli inúmeras vezes, para além de devorar com uma certa regularidade as adaptações televisivas que foram feitas das suas aventuras e que tiveram o actor britânico David Suchet, a encarnar o célebre detective (que recentemente escreveu um livro intitulado "Poirot and Me", cuja leitura desde já recomendo vivamente). 

As aventuras do detective Hercule Porot são na verdade a minha saga (um termo muito em voga no sec. XXI) favorita, apesar de ter outras de que também gosto bastante, como é o caso do meu amigo Antrophos, criado por Lawerence Durrell. Mas regressando à minha "saga favorita", direi que ler as aventuras de Hercule Poirot é um prazer verdadeiramente sedutor, embora a escritora Agatha Christie não tivesse um grande amor por ele, apesar de terem sido os livros que o têm como protagonista os que lhe encheram a conta bancária. 

Agatha Christie preferia Misss Marple a Hercule Poirot e em muitos dos livros se percebe que o enredo foi pensado sem ele e depois, por sugestão do editor, lá o introduziu, porque na verdade são as aventuras de Hercule Poirot os livros mais vendidos de Agatha Christie, que até decidiu matar o famoso detective para ninguém dar continuação às suas aventuras. 

Mas a família da escritora não foi da mesma opinião e eis que surge nesse mercado editorial do séc. XXI outra entidade a escrever novas aventuras de Hercule Poirot. No entanto prefiro ler vezes sem conta as aventuras de Poirot pela mão de Agatha Christie do que escritas por outra pessoa, um dia destes ainda temos "remakes" literários, a serem mais famoso do que os originais!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Lawrence Durrell - "Taormina"


Os critérios editoriais da edição em Portugal são muitas vezes um mistério no que diz respeito a alguns autores bem consagrados, segundo o meu ponto de vista e embora me declare desde já um leitor assíduo da Lawrence Durrell, nunca consegui perceber o silêncio que paira sobre a sua poesia. É certo que a sua prosa é verdadeiramente poética, basta recordar essa obra intitulada “O Quarteto de Alexandria” para ficar tudo dito, mas Lawrence Durrell possui uma enorme obra poética e o seu aparecimento na nossa bela língua, que uns cavalheiros insistem em danificar através de acordos ortográficos, seria certamente um acontecimento literário, recorde-se que algum do seu Teatro é também em verso. Um dos seus livros ao qual retorno com enorme prazer intitula-se “Carrossel Siciliano” e nele é possível encontrar alguns belos poemas do autor, entre os quais este lindíssimo “Taormina”, que aqui vos deixo.


Taormina

Nós três passámos a noite inteira sentados
No roseiral bebendo e esperando
Que a lua tornasse pretas as nossas rosas
No seu lento passeio pelo céu. Falámos
Uma vez por outra na nossa amiga ausente.
Algumas peças de xadrez caíram,
Morrem também os que apenas se sentem e esperam
A lua nova diante desta porta aberta.

Que outra viagem podemos desejar a amigos
Para adular a sua ausência com a nossa lembrança -
Um que se seguiu o peixe-voador para além das remotas Américas, outro para morrer em combate,
Outro para viver na Pérsia e nunca mais escrever.

Ela a todos amou consoante a necessidade deles.
Agora eles são pó na memória de alguém
Esperando em perfeita ordem uma deixa.
Assim e desta maneira te lembraremos.

O fumo dos cachimbos sobe num contentamento puro,
As rosas esticam os pescoços e eis que enfim
Ela cavalga além para emprestar
Uma forma e ficção ao nosso carinhoso desejo.
As legiões dos silenciosos esperam, todas.

Lawrence Durrell
in "Carrossel Siciliano"
(Livros do Brasil)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Frank O'Hara - Lana Turner desmaiou!


O cinema e a poesia muitas vezes andaram de mãos dadas, que o diga o poeta Ruy Belo e esse seu belo poema nascido após o seu "encontro" com "Esplendor na Relva" / "Splendor in the Grass" de Elia Kazan ou essa declaração poética de Frank O'Hara, quando escreveu "A Industria Cinematográfica está em Crise!". 

Um dos mais belos poemas dedicados a uma estrela de cinema foi escrito precisamente por Frank O'Hara e a estrela é a bela e inesquecível Lana Turner!

POEMA

Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ía ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente li um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te!

Frank O’Hara
in “Vinte e Cinco Poemas à Hora de Almoço”
Editor: Assírio & Alvim