quarta-feira, 18 de julho de 2018

Memórias de Marte - Um Balanço!


Ao decidir criar este blogue dedicado aos livros, optei por lhe chamar "Memórias de Marte", porque na verdade são cada vez menos os terrestres que encontro a ler/comprar livros e cada vez mais me sinto um habitante de outro planeta, e sendo Marte o planeta que mais "povoou" o imaginário da humanidade, decidi ser "marciano". Por outro lado, a minha descoberta da Literatura deve-se a esse formato chamado "livros de bolso", que teve o seu apogeu em 1970, com o aparecimento de diversas colecção: "Livros RTP", "Publicações Europa-América", "Unibolso", "Minerva", que a um preço acessível (15$00 escudos), me transportaram para o maravilhoso e inesgotável universo dos livros. Chegado ao"take 60", quantos livros terei lido e relido ao longo dos anos? Irei tentar dar algumas respostas, com a ajuda dessas memórias que terminam sempre por ficar "agarradas" aos livros e que se afiguram como uma espécie de trajecto por esse maravilhoso universo dos livros em papel.

Bom dia!

RLL

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Paul Auster - “4, 3, 2, 1”



Paul Auster 
“4, 3, 2, 1” 
Editora: Asa – Pag. 870

Por vezes os escritores apaixonam-se pelas personagens que criam e terminam por regressar a elas das mais diversas maneiras. John Steinbeck, quando terminou a escrita de “Bairro da Lata” / “Cannery Row”, era um homem feliz, mas sentia que faltava ali uma personagem feminina para o seu herói, o Doc, e assim iria nascer anos depois o romance “Um Dia Diferente” / “Sweet Thursday”. Recorde-se que David S. Ward fez a adaptação cinematográfica das duas obras literárias e realizou o filme com Nick Nolte e Debra Winger nos protagonistas e contando com a voz de John Huston no narrador. 

Já Jay McInnerny, na sua obra-prima intitulada “Quando o Brilho Cai” / “Brightness Falls”, que infelizmente se encontra à muito esgotada no nosso país, revelando-se a sua reedição uma prova de carinho pela Literatura, que tão maltratada anda neste século XXI, recorde-se que a primeira edição portuguesa do livro (Asa) ostentava na capa as célebres Torres Gémeas, destruídas a 11 de Setembro num atentado de má memória. Mas regressando a “Brightness Falls”, de todos os seus romances o meu favorito, Jay McInnerney decidiu dar continuação à vida dos seus heróis, Russell e Corrine, já por duas vezes, primeiro num conto e depois num novo romance. 

E assim chegamos a Paul Auster e ao seu herói Archie Fergusson, cuja vida nos irá ser narrada pelo célebre escritor nova-iorquino, que aqui assina o seu mais longo romance, na edição original, em hard-cover, são mais de 1000 páginas, enquanto na edição nacional, para não afugentar os potenciais leitores, diminui-se o tamanho da letra e enfiou-se muito mais linhas numa página, esquecendo-se como seria importante para o leitor atento e fan de Paul Auster, como é o meu caso, o livro ter precisamente “mil cento e trinta e três páginas com espaçamento duplo” (pag.867). Por outro lado Paul Auster irá trabalhar a partícula “se” / “If”, que tantas vezes altera o nosso quotidiano e que tantas vezes ao olharmos para o passado nos interrogamos sobre o caminho que decidimos tomar ao chegar à célebre encruzilhada da vida ou por vezes é um simples gesto ou palavra, que altera o rumo dos acontecimentos, de forma soberba. 

Em 1982/83 o dramaturgo britânico Alan Ayckbourn escreveu uma série de oito peças para os mesmos personagens, intitulada genericamente “Intimate Exchanges”, partindo desse princípio em que um simples acontecimento, por vezes fortuito, alterava o comportamento e a vida dos personagens que tinha criado e assim todas as peças se iniciavam da mesma maneira, mas tinham sempre desenvolvimentos e desfechos bem diferentes para esses eleitos habitantes do Yorkshire, nascidos da sua escrita e o êxito foi tal que ultrapassou fronteiras e terminou por ser levado ao cinema pela mão do cineasta francês Alain Resnais, nascendo o conjunto memorável desses dois filmes intitulados “Smoking” / “No Smoking”, que contou na escrita do argumento cinematográfico com a célebre dupla Jean-Pierre Bacri/Agnès Jaoui de “O Gosto dos Outros” / “Le Gout des Autres”. 

Paul Auster, neste seu fabuloso “4, 3, 2, 1”, decidiu oferecer ao seu protagonista quatro destinos diferentes e uma bela surpresa no final deste inesquecível romance, por onde passa a história da América, desses anos sessenta e setenta, que cada vez mais estão a ser apagados da memória colectiva. Mas regressando ao romance de Paul Auster, apresento a minha sugestão de leitura de “4, 3, 2, 1”, porque tal como sucede com o fabuloso “Quarteto de Alexandria” / “The Alexandria Quartet” (1962) de Lawrence Durrell, que nos oferece diversas possibilidades de leitura nos quatro volumes que constituem a obra, devendo no entanto iniciar-se sempre com “Justine”, já no livro de Paul Auster tudo se inicia em “1.0”, para descobrirmos como o judeu russo Reznikoff chegou no ano de 1900 à América e como um pequeno lapso terminou por transformar o seu apelido em Fergusson. 

Depois o escritor oferece-nos a vida desta família desdobrada por quatro, fruto desse destino que irá marcar o percurso dos diversos protagonistas do romance e assim a minha sugestão de leitura dos capítulos é de os lerem não em sequência, mas acompanhando em separado cada uma das 4 vidas de Archie Fergusson: 

Fergusson 1 – Capítulos 1.1; 2.1; 3.1; 4.1; 5.1; 6.1; 7.1. 
Fergusson 2 – Capítulos 1.2; 2.2. 
Fergusson 3 – Capítulos 1.3. 2.3; 3.3; 4.3; 5,3; 6.3. 
Fergusson 4 – Capítulos 1.4: 2.4: 3.4: 4,4: 5.4; 6.4; 7.4. 

Ao longo deste fabuloso romance o leitor, se for fan de Paul Auster, irá descobrir diversos traços biográficos do escritor com a personagem de Archie Fergusson, seja no gosto pelo cinema, como nas referências literárias, passando por essa cidade de Paris onde Paul Auster viveu durante alguns anos e depois temos sempre o encontro de uma das personagens da célebre “A Trilogia de Nova York” / “The New York Trilogy”, que tornou famoso Paul Auster e que reunia três novelas suas, algo que irá suceder com os primeiros escritos do Fergusson escritor. 

Mas se quer conhecer melhor este livro antes de o ler, deixo o convite para verem a emissão de “La Grande Librairie”, apresentada por François Busnel, na qual Paul Auster é o convidado principal, para além da sua esposa e escritora Siri Hustvedt, o escritor francês Philippe Delerm, que escreveu um livro sobre Lisboa e essa maravilhosa actriz chamada Isabelle Carré, que nos fala do seu livro. No início desta emissão temos uma divertida apresentação dos convidados feita pelo actor Pierre Arditi. São cerca de 90 minutos memoráveis em que ficamos a conhecer um pouco melhor Paul Auster e onde se respira livros em todos os fotogramas! 

Rui Luís Lima

quarta-feira, 20 de junho de 2018

E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac. - "Entrevistas da «Paris Review»"



E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac. 
"Entrevistas da «Paris Review»"

Tinta da China, Pag. 345 



A Literatura também possui as suas revistas famosas e a “Paris Review”, a par da Granta, é precisamente uma delas, tendo-se a primeira tornado famosa pelas suas entrevistas aos maiores nomes da Literatura. 
Neste livro estão reunidas dez entrevistas realizadas nas décadas de 50/60 e nelas iremos mergulhar na famosa oficina do escritor.



E. M. Forster abre o livro e as portas da sua casa para receber o entrevistador e ao longo desse encontro mergulhamos no templo do autor ficando a saber, entre muitas coisas, que nem sempre a acção retratada num livro serviu de local para a sua feitura, como nos confessa Forster a propósito de “Passagem Para a Índia”, que seria mais tarde adaptado ao cinema por David Lean.



Já o encontro com Graham Greene, realizado também na sua casa, aborda o catolicismo da sua obra, vindo-nos de imediato à memória “O Fim da Aventura” com a inclusão do milagre e do pecado e a inevitável justiça de Deus. Um dado curioso neste encontro que ficamos a saber pela boca do escritor é que num concurso efectuado por uma revista junto dos seus leitores, convidando-os a imitar a escrita de Graham Greene, o escritor decidiu concorrer utilizando um pseudónimo, tendo obtido o segundo lugar.



William Faulkner é outro dos escritores que abriu as portas à “Paris Review”, oferecendo uma das mais belas entrevistas inseridas no livro. Não só fala dos seus livros e do seu método, como nos conta sem pudores como conseguiu editor para o seu primeiro livro. A sua relação com o cinema também é motivo de interesse, oferecendo-nos o olhar de Hollywood de forma bastante mordaz.



Por seu lado Ernest Hemingway recebe o entrevistador da “Paris Review” com enorme relutância, sentindo-se a dificuldade do génio em ser confrontado pelo entrevistado na sua casa, situada na ilha de Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” surge aqui muitas vezes não escondendo uma certa amargura por pessoas com quem conviveu, em especial Gertrud Stein, cujo relato dos encontros tidos na sua casa de Paris, não foram nada do agrado do escritor, que tão bem a retratou no seu "Paris é Uma Festa".



Lawrence Durrell, por seu lado, revela-se um maravilhoso conversador, oferecendo-nos um dos mais belos retratos que um escritor possa fazer de si, falando da sua infância sem pudores e da forma como desde sempre o universo literário o fascinou. Ficamos a saber como nasceu e foi escrita a sua obra literária mais famosa: “Quarteto de Alexandria”, que nasceu para fazer frente às dificuldades económicas então vividas, assim como foram criados os seus famosos livros de viagens, a maioria deles tendo por fundo as ilhas Gregas, aliás o escritor conta-nos que após ter publicado “Chipre, Limões Amargos”, achou por bem não regressar à ilha devido ao ambiente tumultuoso que então se vivia. Uma entrevista perfeita para figurar ao lado da sua obra, devido ao sabor das suas palavras.



O “enfant-terrible” Truman Capote surge aqui também apresentando-se em todo o seu esplendor, nunca fugindo às perguntas do entrevistador, oferecendo-nos momentos de um humor único. Fala-nos do seu método e confessa a sua paixão pela literatura, não encontrando problemas em ler livros de outros autores enquanto escreve as suas obras, ao mesmo tempo que se revela um leitor compulsivo dos jornais diários.



Outra das entrevistas mais belas deste livro é efectuada ao prémio Nobel Boris Pasternak, que irá conversar calmamente com a filha de uns amigos, falando não só da sua obra, mas da pátria onde vive. Ao longo das conversas efectuadas (foram várias durante alguns dias), a entrevistadora relata-nos de forma soberba o ambiente que se vive na casa deste grande vulto das letras, cuja obra mais célebre é o famosíssimo “Dr. Jivago”, como muitos devem estar recordados. A simplicidade das suas palavras e a modéstia que vive nelas é de uma ternura pela vida que nos deixa a todos profundamente seduzidos.



Saul Bellow por seu lado fala essencialmente da sua obra e muito em especial de “Herzog”, esse livro incontornável, que o transportou até ao pico da fama.



Jorge Luis Borges oferece-nos outro dos momentos mais belos do livro, conversando tranquilamente com o entrevistador no seu local de trabalho, confessando o seu interesse pelo inglês e norueguês antigo, ao mesmo tempo que mergulhamos maravilhados nas suas palavras percorrendo esse universo único descoberto pelo mundo ao ler a sua obra mágica. Como não podia deixar de ser ficamos a saber como ele luta com a falta de visão, ao mesmo tempo que nos fala do seu interesse pelo cinema.



A terminar este conjunto de dez entrevistas a autores que mudaram para sempre os caminhos da Literatura vamos encontrar Jack Kerouac na sua casa, sempre vigiado pela esposa Stella que faz uma verdadeira selecção de quem pode ou não falar com o escritor beatnick. Ficamos a conhecer a forma inteligente como o entrevistador se introduz no seu lar e, de imediato, percebemos que o maior nome da geração "beat" se encontra sobre o efeito de anfetaminas, mergulhando em respostas por vezes desconcertantes, mas profundamente reveladoras. Como não podia deixar de ser ficamos a conhecer um pouco melhor alguns dos episódios da sua convivência com Alan Ginsberg e outros nomes famosos da geração a que pertenceu, ao mesmo tempo que nos são oferecidos pormenores desconhecidos de como foram nascendo os seus livros. 



Mergulhar na leitura destas entrevistas é equivalente a uma viagem pelo interior da Literatura do século xx, nas suas mais diversas vertentes, uma viagem que se apresenta profundamente gratificante para o leitor, que inevitavelmente é convidado a (re)descobrir a obra destes homens, que mudaram para sempre o universo Literário. 


Rui Luís Lima

terça-feira, 19 de junho de 2018

Fernando Pessoa - "Poesia de Álvaro de Campos"



Fernando Pessoa 
"Poesia de Álvaro de Campos" 
Assírio & Alvim, Pag. 672 

Conheci o Engenheiro Álvaro de Campos numa noite de Natal em que ele me foi apresentado por Fernando Pessoa e, desde então, este heterónimo viajante das palavras entrou no meu imaginário e com ele participei em viagens através de mares nunca antes navegados. Conheci piratas e naveguei em paquetes, conheci uma rapariga inglesa loira míope, acompanhante forçada de uma tia, a caminho de Durban e convivi em noites soalheiras com um casal oriundo do novo mundo que me apresentou a poesia de Walt Whitman, como se ela fosse essa erva que acompanha o caminhante ao longo dessa estrada longa que atravessa a América de uma costa a outra, com o Pacífico de um lado a invadir o areal e as ondas do Atlântico a oferecerem a sua musicalidade às estrofes dos poetas. 

De todos os poemas descobertos nessa véspera de Natal, o meu favorito, aliás já conhecido, intitula-se “Tabacaria” e começa assim “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” 
Durante décadas li este poema sempre profundamente apaixonado, assim como um outro que se iniciava com “Cruz na porta da Tabacaria”. Ao longo do tempo sempre associei estes dois poemas ao mesmo heterónimo, o saudoso Engenheiro Álvaro de Campos, tal como sucedia com a edição da Ática que me foi oferecida nesse longínquo ano de 1970 e que durante estes anos tem sido um dos meus livros de cabeceira. Ao lado de Marcel Proust e de Lawrence Durrell. 

Mas um dia fui presenteado com uma nova edição da Poesia de Álvaro de Campos organizada pela estudiosa Teresa Rita Lopes, que nos oferece um volume onde descobrimos poemas até hoje desconhecidos do mundo e que, adormecidos na famosa Arca, permaneciam escondidos de todos. Tenho que confessar o meu fascínio por este volume de cerca de 650 páginas, no entanto fiquei verdadeiramente perplexo com a ausência desse poema de Álvaro de Campos “Cruz na porta da Tabacaria”, em virtude de Teresa Rita Lopes não considerar como autor do poema o heterónimo Álvaro de Campos. Ao sair uma edição excelente da Tinta da China intitulada “Obra Completa de Álvaro de Campos” organizada por Joaquim Pizarro e António Cardiello (que também recomendo) verifiquei que o poema “Cruz na Porta da Tabacaria” fazia parte do volume e era atribuído a Álvaro de Campos, tal como sucedia na edição da Ática de “Poesias” de Álvaro de Campos. 

Como a liberdade de pensar é um dos bens que mais amo, porque penso, logo existo, como aprendi no programa radiofónico “O Homem no Tempo”, emitido em finais dos anos setenta no FM do RCP e onde escutei poemas do Engenheiro numa maravilhosa montagem radiofónica de João David Nunes, decidi colocar neste maravilhoso trabalho encetado pela investigadora Teresa Rita Lopes o poema que considero em falta, atribuindo-lhe a página 326-A, sem qualquer polémica, e assim usufruir o pequeno prazer de ler a poesia de Álvaro de Campos.

Rui Luís Lima 

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Cruz na Porta 

Cruz na porta da Tabacaria! 
Quem Morreu? O próprio Alves? Dou 
Ao diabo o bem-estar que trazia. 
Desde ontem a cidade mudou. 

Quem era? Ora, era quem eu via. 
Todos os dias o via. Estou 
Agora sem essa monotonia. 
Desde ontem a cidade mudou. 

Ele era o dono da Tabacaria. 
Um ponto de referência de quem sou 
Eu passava ali de noite e de dia. 
Desde ontem a cidade mudou. 

Meu coração tem pouca alegria, 
E isto diz que é morte aquilo onde estou. 
Horror fechado da tabacaria! 
Desde ontem a cidade mudou 

Mas ao menos a ele alguém o via. 
Ele era fixo, eu, o que vou. 
Se morrer, não falto, e ninguém diria. 
Desde ontem a cidade mudou. 

Álvaro de Campos 

domingo, 17 de junho de 2018

Sam Shepard – “Crónicas Americanas” / "Motel Chronicles"



Sam Shepard 
"Crónicas Americanas" 
Difel, Pag. 184 

Quando a sua mulher Jessica Lange é entrevistada no seu rancho, Sam Shepard procura refúgio junto dos estábulos ou parte a cavalo para a colina mais próxima do sol. 

Este homem, nascido em Fort Sheridan, no estado do Illinois, é um dos maiores dramaturgos norte-americanos, sendo comparado por muitos a Eugene O’Neil. Para Frank Rich, ele é um profeta, amante da tecnologia e dos ambientes selvagens, bem patente nos seus contos, poemas, monólogos e peças de teatro. 

"esta gente aqui 
já é 
a gente 
que finge ser"

27/7/81 – Los Angeles/Sam Shepard 

Filho de um oficial da aviação, a sua infância, tal como a de Jim Morrison dos Doors, foi invadida pelo sentido nómada a que se encontravam ligados os pais. Ele mesmo referiu numa entrevista que as suas raízes intelectuais foram adquiridas na “cultura-auto” para adolescentes, através das cidades do sul da Califórnia. 

A sua obra apresenta no seu interior a nostalgia pelo velho Oeste: as planícies desertas, as águas dos rios frescas e cristalinas, o amor da solidão, o medo, o rock na estrada, os motéis, a família em desagregação, a amizade, os breves encontros e a dor dos sentimentos. 

Com mais de quarenta peças escritas, entre as quais “Burried Chield” que obteve o Pulitzer, Shepard acabou por chegar ao cinema. Mas muito antes navegara pelas águas do rock, tocando bateria ao lado de Bob Dylan e dos Molly Modal Rounders. O seu conto “Ritmo”, invadido pelo rock and roll, é a melhor referência ao movimento sincopado de bateristas como Ginger Baker ou Keith Moon. 

Em Portugal, Sam Shepard viu chegarem ao palco as peças “Loucos de Amor” encenada pela primeira vez em S. Francisco a 8 de Fevereiro de 1983 no Magic Theatre e a peça “Coração na Boca”, escrita de parceria com a cantora/poetisa Patti Smith, com quem vivia na época. 

Sam Shepard e o cinema encontraram-se pela primeira vez em “Deserto de Almas”/”Zabriskie Point” de Antonioni, no qual colaborou como argumentista. No entanto será com “Paris/Texas” de Wim Wenders, um “road-movie” nostálgico, que Sam Shepard irá alcançar a fama no Velho Continente. Os diálogos do encontro de Travis com Jane no Peep-Show são dos mais dolorosos e sinceros que alguma vez foram escritos para cinema e Wim Wenders, com a música de Ry Cooder, atingiu o estado-cristalino da sua criatividade. 

"A felicidade 
cai 
no lado errado 
da Sorte 

A felicidade 
cai 
longe das minhas mão. 

A felicidade 
despenha-se 
entre as árvores 

toda a gente se queixa."

2//7/81 – San Fernando Valley / Sam Shepard 

A estreia de Sam Shepard na Sétima Arte como actor, ocorreu no cult-movie de Terrence Malick “Dias do Paraíso”/”Days of Heaven” e mais tarde deu-se o encontro com a sua companheira Jessica Lange, em “Frances” de Greme Clifford, que narra a história de Frances Farmer, estrela cintilante dos anos trinta. Depois Philip Kaufman passou para o écran a epopeia de Tom Wolf “The Right Stuff”/”Os Eleitos”. O desempenho de Sam Shepard nesta película leva a Academia de Hollywood a nomeá-lo para o Oscar do Melhor Secundário, isto num filme em que não havia actores principais. 

Entretanto a sua ligação com a actriz Jessica Lange, de quem já tem dois filhos, leva-o a interpretar e produzir “Country”, reflexo da sua própria vida como fazendeiro e cujo objectivo era alertar os agricultores para a política agrícola nefasta do então presidente Ronald Reagan. 

A sua peça “Fool For Love”/”Loucos de Amor”, das mais conhecidas internacionalmente, foi adaptada ao cinema por Robert Altmann e, melhor do que ninguém, Sam Shepard vestiu a pele do cow-boy errante, que regressa à sua amada, uma Kim Basinger sensual e selvagem. Falou-se na altura numa relação escaldante entre ambos, durante as filmagens. 

Depois de “Loucos de Amor”, Sam teve três papéis secundários em películas medianas de reduzido interesse, caso de “Crimes do Coração” de Bruce Beresford, “Quem Chamou a Cegonha” de Charles Sheyer e “Flores de Aço” do veterano Herbert Ross. 

Entretanto Shepard passou para o outro lado da câmara e realizou “Ordem de Execução”, exibido em Lisboa apenas durante uma semana, numa sala deserta, e só com referências na imprensa depois da sua saída de cartaz, aliás as referências foram lamentações da crítica, porque ninguém viu a película. 

"desde a relva alta, alta 
até à esquina do parque 
vejo-te que me estudas 

eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar 
e cada olhar que te roubo 
deixa-me um dia mais novo 

Ultimamente tem sido difícil apanhar-te 
ou então sou eu que estou a ficar velho 
um dos dois está com certeza a perder"

6/11/81 – Homestead Valley/Sam Shepard 

Nos anos noventa continuou a surgir em papéis secundários em diversos filmes, numa média de três por ano e ainda escreve e realiza o seu segundo movie, um western intitulado “Silent Tongue”, com Richard Harris, Alan Bates e River Phoenix nos protagonistas... no novo século XXI manteve a média de aparições, sendo de destacar a sua interpretação em “Cercados”/”Black Hawk Down”. 

Sam Shepard é o último dos cow-boys, o homem que atravessou os anos sessenta com o rock, a poesia e o teatro no seu alforge; depois, quando desceu do cavalo, descobriu o cinema ao lado do saloon, conquistou a girl de “King Kong”, transformando-a na sua companheira para a vida, fazendo dela a mulher que todos admiramos e ele continuou as suas narrativas do velho Oeste com o Sol a Sorrir no Horizonte Feliz. 

“Crónicas Americanas” reúne poemas e contos escritos com a inevitável originalidade de Sam Shepard, onde as memórias navegam ao sabor da escrita. 

Rui Luís Lima

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Céleste Albaret - “Monsieur Proust”



Céleste Albaret 

"Monsieur Proust" 
(Souvenirs recueillis par George Belmonte) 
Robert Laffont, Pag. 460 

Céleste Albaret nasceu na província em França, numa pequena cidade chamada Auxillac, e com 21 anos apenas casou-se com um motorista de táxi parisiense chamado Odilon Albaret. Mas Odilon tinha um cliente muito especial que irá mudar para sempre a vida da jovem Céleste, esse cliente chamava-se Marcel Proust, que até lhes enviou a 27 de Março de 1913, aquando do casamento de Odilon, um telegrama a felicitá-lo pelo feliz enlace e a desejar as maiores felicidades para o jovem casal. 

Após a viagem de núpcias, Odilon e Celeste regressaram a Paris, uma cidade que a jovem desconhecia por completo e poucos dias depois Odilon Albaret decidiu passar pelo número 102 do Boulevard Haussmann, para informar Marcel Proust que já tinha regressado, tendo levado consigo a jovem esposa, para quem tudo era novidade. 

Curiosamente, será na cozinha que a jovem Céleste Albaret irá conhecer Marcel Proust e como ela não tinha nenhum emprego em vista, o escritor decidiu oferecer de forma indirecta uma primeira tarefa para a jovem de 22 anos efectuar, com grande agrado de Odilon, que assim via a esposa a começar a ter uma ocupação na cidade das luzes e mais ainda por ficar relacionada com o seu melhor cliente, por quem aliás tinha uma enorme estima.




Quando Proust e Céleste se conheceram, o escritor tinha acabado de ver editado na Grasset o livro “Du côté de chez Swann”, uma edição que aliás foi paga pelo próprio escritor, que durante largo tempo viu o primeiro volume da sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” recusado pelos editores e teve que usar o expediente de financiar a própria edição do livro. Como não podia deixar de ser, Marcel Proust encontrava-se a preparar o envio de diversos exemplares do livro devidamente autografados para amigos, familiares e críticos literários, sendo a tarefa de Céleste entregá-los nas respectivas moradas, numa cidade que já era bastante extensa e após ter cumprido esta tarefa que durou algumas semanas com sucesso, a jovem entrou ao serviço do escritor no número 102 do Boulevard Hausmann.

Nos primeiros tempos Marcel Proust irá tratar Céleste Albaret por Madame mas, pouco tempo depois a jovem, já familiarizada com a forma de agir de Proust, irá solicitar ao escritor que este a trate simplesmente pelo seu nome próprio, iniciando-se assim uma das mais famosas relações de amizade, repleta de cumplicidades mútuas que irá originar um dos mais belos e sinceros testemunhos dos últimos anos de vida de Marcel Proust, assim como da feitura desse Monumento Literário intitulado “Em Busca do Tempo Perdido”.

Após a morte do célebre escritor muito se escreveu sobre Marcel Proust e a sua obra, mas nem sempre o que surgia escrito, fosse na imprensa ou em livro, correspondia à realidade e será isso mesmo segundo irá confessar Céleste Albaret, a contar as suas memórias a George Belmonte aos 82 anos, dando assim o seu testemunho dos anos passados ao serviço do escritor, foram as “não verdades” como ela refere que vão dar origem a este fabuloso livro intitulado “Monsieur Proust”, que se lê como um verdadeiro romance da primeira à última página.




Georges Belmonte, na introdução que nos oferece, conta-nos que nas setenta horas de conversa tidas com Céleste Albaret lhe foram dadas todas as provas necessárias da veracidade dos acontecimentos narrados por ela, sem uma única contradição nos testemunhos recolhidos, certamente porque perante ele se encontrava a mais bela e sincera das vozes: a voz da amizade. 

Ao lermos “Monsieur Proust” de Céleste Albaret, deparamos com o mais belo e sincero testemunho dos últimos anos de vida desse eterno recluso chamado Marcel Proust, emboscado nas trincheiras do seu quarto contra esses terríveis ataques asmáticos que sempre o perseguiram desde criança, aliás bem retratados pelo narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”; a sua eterna luta para concluir a obra de uma vida, que se revelaria sempre um “work in progress”, como ele confidenciou um dia à chére Céleste, esse termo bem carinhoso com que ele a tratava, ao mesmo tempo que lhe lia as páginas que ia escrevendo deitado na cama; alimentando-se nos últimos tempos quase sempre de litros de café e de croissants, só em ocasiões especiais aceitava comer um pouco de peixe ou carne, sempre por insistência de Céleste, para não perder tempo, porque “Em Busca do Tempo Perdido” era a razão da sua existência no Universo. 

Céleste Albaret é a responsável pela ideia de colar as famosas páginas de formato A3 manuscritas por Proust (os célebres acrescentos) umas às outras para os tipógrafos, ao receberem as correcções das provas feitas pelo escritor, não se enganarem terminando assim com um dos grandes temores de Marcel Proust. Por outro lado, no dia em que a jovem esposa de Odilon sugeriu ao escritor para este arranjar uma secretária, este sorriu e respondeu-lhe que já tinha uma, por quem possuía uma enorme estima, chamada Céleste.




Em “Monsieur Proust” são inúmeros os acontecimentos bem marcantes que atravessam as páginas deste fabuloso livro de memórias: o comportamento de André Gide ao receber para análise o manuscrito de “Du cotê de chez Swann”, afirmando Marcel Proust que ele nunca o leu, tendo simplesmente recusado para publicação, porque os nós do pacote vinham tal como ele os tinha feito, para o envio; a atitude de Gaston Gallimard quando “À l’ombre des jeunes filles” foi consagrado com o Prémio Goncourt(**), o segundo volume de “Em Busca do Tempo Perdido”; a famosa ida de Marcel Proust na companhia de Jean-Louis Vaudoyer ao Jeu de Paume, para ver uma exposição de quadros de Vermeer, que mais tarde irá surgir no romance, revelando-se um dos momentos mais memoráveis da obra literária de Marcel Proust. 

“Monsieur Proust” da autoria de Céleste Albaret revela-se assim como uma obra fundamental para a compreensão e estudo desse Monumento Literário que é “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, oferecendo-nos de uma forma simples, mas profundamente mágica a relação entre o escritor e Céleste Albaret, que um dia lhe disse: «o senhor é um mágico». 

(*) “Do Lado de Swann” Ed. Relógio D’Água 

(**) “À Sombra das Raparigas em Flor” Ed. Relógio D’Água” 

Rui Luís Lima

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Roy Rowen / Octavio Enguita Iguarbez - "Holocausto em Berlin" / "Holocausto en Berlin"


Roy Rowen / Octavio Enguita Iguarbez
"Holocausto em Berlin" / "Holocausto en Berlin"
Palirex - Pág.128

Nesta viagem pelo interior do denominado romance popular ou literatura de quiosque, como era designada em Espanha, descobrimos este livro de Roy Rowen, pseudónimo do escritor Octavio Enguita Iguarbez, que nos oferece um relato sobre uma Berlin à beira do fim, com a particularidade de a sua escrita ser bem diferente dos livros anteriormente referidos por aqui, abordando o lado alemão, onde iremos acompanhar a fuga de quatro personagens bem diferentes: um soldado desertor, um jovem da juventude hitleriana, a quem foi dada uma estranha missão e duas jovens judias, que até então tinham conseguido sobreviver. Este estranho grupo irá tentar fugir do centro de Berlin, cercado pelas tropas soviéticas, numa tentativa de chegar ao local onde se encontram as tropas americanas e o relato dessa viagem é na verdade emocionante, um verdadeiro argumento cinematográfico para um filme de guerra. Como última curiosidade, de referir que as capas destes livros. na edição do nosso país, surgida nos anos 60, século xx, não têm nada a ver com a especificidade do romances no seu interior, são simplesmente imagens de guerra, fora do contexto do livro.

Rui Luís Lima