terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Umberto Eco / Jean-Claude Carrière - “Não Contem com o Fim dos Livros” / “N’espérez pas vous débarrasser des livres”



Umberto Eco / Jean-Claude Carrière
“Não Contem com o Fim dos Livros” 
Gradiva, Pag.263

Será que os livros em papel estão condenados? Será que daqui a um século os nossos descendentes irão visitar exposições para descobrirem a Literatura em papel? Será que a revolução tecnológica irá eliminar para sempre o formato do livro? Será que a net e os infindáveis gadgets irão substituir os livros? Será que a Wikipédia irá fazer desaparecer da memória a famosa Enciclopédia Britânica? Será possível viver num universo sem memória dos livros?

A todas estas questões e a muitas outras irá o leitor descobrir a resposta através de uma conversa, que se irá estender por diversos dias, entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, conduzida por Jean-Philippe de Tonnac, em Paris e onde o famoso Umberto Eco, bem conhecido do grande público pelo seu romance “O Nome da Rosa” e não só, mas também um profundo observador dessa ideologia dominante do século XXI, que é o “politicamente correcto”, nos oferece um conjunto de saborosas conversas com o argumentista Jean-Claude Carrière, famoso pela sua colaboração com o cineasta Luis Buñuel e não só.

Tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière são coleccionadores de livros antigos, sendo o último casado com uma iraniana, cujo pai “fez um estudo sobre um encadernador de Bagdade, que viveu no século X, chamado Al-Nadim” e também iremos ficar a saber por Jean-Claude Carrière “que foram os iranianos que inventaram a encadernação e mesmo aquela que recobre por completo a obra para a proteger”, terminando este coleccionador de livros antigos por nos dizer que, num período de grandes dificuldades económicas, foi forçado a vender parte da sua Biblioteca para fazer frente aos imponderáveis da vida e aqui tenho de confessar que também já me aconteceu o mesmo no século passado, o que nos leva a amar ainda mais os livros que possuímos na nossa Biblioteca.

Ao longo destes saborosos diálogos viajamos desde a Antiguidade, passando pela famosa Biblioteca de Alexandria, até chegar aos nossos dias e os autores desde delicioso livro revelam a sua enorme sabedoria pela forma como abordam o actual panorama literário e a proliferação dos Best-Sellers e essa Vanity Press (o delicioso termo é aplicado por Umberto Eco), que enche o espaço dos destaques das grandes superfícies culturais, conhecidas vulgarmente por livrarias.


E, como não podia deixar de ser, também esse espaço conhecido por “A Biblioteca” está bem presente nestas conversas, não só a famosa Biblioteca Pública onde alguns de nós ainda vão, mas também a nossa querida Biblioteca que vamos construindo ao longo da nossa passagem pelo Universo e aqui tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière nos falam desse visitante, amigo ou familiar, cuja personagem também já entrou na nossa habitação e ao olhar para as paredes afirma: “Tantos livros! Mas vocês já leram estes livros todos!?”. Sendo precisamente nestes momentos, que nos apetece dar uma dessas respostas que terminaria de imediato com a conversa e possivelmente com a amizade, mas a educação leva-nos a sorrir e a mudar de assunto, já Umberto Eco prefere responder assim, “Não. Estes livros são simplesmente os que terei de ler na próxima semana. Os que já li estão na Universidade.”

Neste incontornável livro, intitulado “Não Contem com o Fim dos Livros”, também se fala desses maus livros que espalharam o ódio como o “Mein Kampf” e as razões que levam ao seu reaparecimento nas livrarias, mas mais curioso são as respostas que alguns editores deram ao devolverem/recusarem certas obras que fazem parte da Memória Literária do Universo, considerando-a o organizador deste livro, Jean-Philippe de Tonnac, como “uma outra página caricata ou desconcertante da história do livro” e aqui passo a palavra a Umberto Eco que, ao responder à questão, se refere assim ao assunto:

“Já mostraram que podiam, por vezes, ser suficientemente estúpidos para recusar certas obras-primas. Trata-se, com efeito, de um outro capítulo da história das burrices. «Sou talvez um pouco limitado, mas não consigo compreender a necessidade de consagrar trinta páginas para narrar como alguém se volta e torna a voltar na cama, sem conseguir dormir.» É o primeiro relatório de leitura sobre Em Busca do Tempo Perdido de Proust. A propósito de Moby Dick: «É pouco provável que uma tal obra possa interessar a um público jovem.» Dirigido a Flaubert, a propósito de Madame Bovary: «Caro Senhor, o seu romance submerge sob um mar de detalhes bem desenhados, mas inteiramente supérfluos.» A Emily Dickinson: «As suas rimas estão todas erradas.» A Colette, a propósito de Claudine à l’école: «Receio não vender mais que dez exemplares.» A George Orwell, sobre Animal Farm: «É impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos.» Sobre o Diário de Anne Frank: «Esta rapariguinha não parece fazer a menor ideia de que o seu livro não pode ser senão objecto de curiosidade.»

Depois Umberto Eco ainda refere como contraponto o que, certos responsáveis dos Estúdios de Hollywood, afirmaram sobre Fred Astaire e Clark Gable e aqui chegado, meus caros amigos, sugiro que comprem este magnifico livro porque, se gostam de livros, este “Não Contem com o Fim dos Livros” tem que constar da vossa Biblioteca.


Rui Luís Lima

2 comentários:

  1. Para já a primeira posta despertou-me interesse em seguir e já está no meu agregador de blogues, de forma a poder visualizar tudo o que por aqui for publicado, mesmo que nem sempre comente, vejo.

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    1. Obrigado pelo comentário é precisamente na troca de ideias e sugestões literárias que descobrimos livros e autores, aplicando-se o mesmo princípio a outras áreas como o cinema e a música.
      Bom fim-de-semana!

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