quinta-feira, 1 de março de 2018

Yukio Mishima - "O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar" / "Gogo No-Eiko"



Yukio Mishima
"O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar"

Assírio & Alvim, Pag. 184 


Um dia, numa conversa num café à volta de livros e autores, alguém me perguntou se tinha algum personagem literário que gostaria que tivesse ficado esquecido pelo seu criador? E de imediato me veio à memória esse genial escritor japonês chamado Yukio Mishima, de cuja obra literária sou admirador. Recorde-se que Yukio Mishima é um dos mais importantes escritores japoneses do século XX e o mais célebre no mundo ocidental, tendo até Margueritte Yourcenar escrito um belo ensaio sobra a sua vida e obra.

Ao longo da sua extensa obra literária, Yukio Mishima aliou o erotismo com a crueldade, criando um universo extremamente sedutor, mas a sua vida era o espelho da sua obra e a sua obra o reflexo da sua vida. O nacionalismo e a honra que defendia eram a memória dos velhos samurais, essa mesma memória de que Akira Kurosawa nos falou um dia, perdida para sempre num Japão industrializado e em muitos aspectos ocidentalizado, fruto da ocupação americana, após o final da 2ª Grande Guerra Mundial.

Foi o amor de Yukio Mishima pela escrita do sangue que o irá conduzir através dessa estrada sem retorno e sem paragem na famosa encruzilhada, que nos convida sempre a meditar sobre a decisão por ele tomada. A 25 de Novembro de 1970 decide, com quatro alunos das suas Forças, tentar um golpe de estado que sabia votado ao fracasso, para repor a Ordem Imperial. Na véspera enviara para o editor "O Mar da Fertilidade", a sua última obra, composta por quatro volumes, verdadeiro Testamento Literário e uma obra incontornável de um dos maiores escritores do século xx. Vivendo numa sociedade virada para o futuro e para o consumo e querendo impor o amor pelo passado e pela tradição, Yukio Mishima faz o "hara-kiri" perante uma multidão de soldados e jornalistas que, incrédulos, assistem à partida do Último dos Samurais.

Em “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”, primeiro livro de Yukio Mishima a ser publicado em Portugal, é-nos oferecida uma personagem que até gostaríamos que não tivesse sido criada pelo genial escritor japonês. Trata-se de Noburo, uma criança cruel, que no final do livro irá dar-nos a conhecer o verdadeiro sentido da palavra, mas que Yukio Mishima nos oferece com essa rara delicadeza que sempre caracterizou a sua escrita.

Descobrir este fabuloso livro de Yukio Mishima é a nossa sugestão de hoje e, se desejarem, podem sempre procurar no livro de António Mega Ferreira, que reúne diversas crónicas do autor, intitulado “A Borboleta de Nabukov” o magnifico texto que ele escreveu para o Jornal de Letras, aquando da primeira edição de “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar” e também nunca é demais recomendar a leitura do livro de Margueritte Yourcenar sobre Yukio Mishima. 

Rui Luís Lima 

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