terça-feira, 1 de maio de 2018

Fabrice Luchini - "Comédie Française - Ça a débuté comme ça..."


Fabrice Luchini 
“Comédie Française – Ça a débuté comme ça…" 
Flammarion, Pag. 245 

Fabrice Luchini é um actor que não necessita de apresentação para o cinéfilo, mas este seu primeiro livro revela-nos acima de tudo o homem que, aos 14 anos, deixou de estudar e foi aprender a ser cabeleireiro, a profissão da mãe, e por ali andou até aos 21, pelo caminho tornou-se autodidacta e sentiu o apelo pela cultura, lendo e relendo, o que descobria e o que lhe sugeriam. E se a namorada lhe deu a descobrir Nietzsche, já a leitura de Céline e Proust levaram-no até à Literatura e Rimbaud à Poesia, enquanto Rohmer lhe iria abrir as portas do cinema. 

Este livro verdadeiramente fascinante de Fabrice Luchini possui o condão de, ao lermos cada página, escutarmos de viva voz o seu autor, porque ele escreve como fala nas entrevistas, ou seja sempre contracorrente, dizendo o que pensa dos mais variados assuntos e nada politicamente correcto, fugindo desta ideologia dominante do século XXI, que sufoca a diversidade. 

Mas o mais fascinante dos capítulos deste livro é o encontro de Fabrice Luchini com Rolland Barthes que, como ele escreveu, estava para sua geração como o Harry Potter se encontra para outra, mais recente. E se a admiração por Barthes era enorme, seria após o desastre crítico de “Perceval, Le Gaulois” de Eric Rohmer, do qual Fabrice Luchini foi o protagonista, que a defesa do filme por Rolland Barthes, publicada na imprensa escrita, o levaria a ir a casa de Barthes para agradecer as suas palavras, mas a porteira não o deixou entrar e disse-lhe que se quisesse falar com ele que fosse nesse domingo à Sorbonne assistir ao seu Curso e ele assim fez. 

Eram centenas a escutar Rolland Barthes, oriundos das mais diversas profissões nessa manhã e quando ele conseguiu chegar “à fala”, o Mestre reconheceu-o do filme, para sua surpresa, e marcou um encontro com ele na sua casa, para conversarem e seria nesse encontro que Fabrice Luchini, em casa de Barthes, após comentar a existência de uma boina e o seu significado, viria a descobrir a origem basca de Roland Barthes. 

Estamos perante um desses livros que se devoram ao longo de uma noite, como fazia François Truffaut na sua juventude, e quando terminamos a leitura de “Comedie française – Ça a débuté comme ça…”, não só descobrimos um actor fascinante, mas também um escritor, no verdadeiro sentido da palavra!

Rui Luís Lima

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