sexta-feira, 22 de junho de 2018

Paul Auster - “4, 3, 2, 1”



Paul Auster 
“4, 3, 2, 1” 
Editora: Asa – Pag. 870

Por vezes os escritores apaixonam-se pelas personagens que criam e terminam por regressar a elas das mais diversas maneiras. John Steinbeck, quando terminou a escrita de “Bairro da Lata” / “Cannery Row”, era um homem feliz, mas sentia que faltava ali uma personagem feminina para o seu herói, o Doc, e assim iria nascer anos depois o romance “Um Dia Diferente” / “Sweet Thursday”. Recorde-se que David S. Ward fez a adaptação cinematográfica das duas obras literárias e realizou o filme com Nick Nolte e Debra Winger nos protagonistas e contando com a voz de John Huston no narrador. 

Já Jay McInnerny, na sua obra-prima intitulada “Quando o Brilho Cai” / “Brightness Falls”, que infelizmente se encontra à muito esgotada no nosso país, revelando-se a sua reedição uma prova de carinho pela Literatura, que tão maltratada anda neste século XXI, recorde-se que a primeira edição portuguesa do livro (Asa) ostentava na capa as célebres Torres Gémeas, destruídas a 11 de Setembro num atentado de má memória. Mas regressando a “Brightness Falls”, de todos os seus romances o meu favorito, Jay McInnerney decidiu dar continuação à vida dos seus heróis, Russell e Corrine, já por duas vezes, primeiro num conto e depois num novo romance. 

E assim chegamos a Paul Auster e ao seu herói Archie Fergusson, cuja vida nos irá ser narrada pelo célebre escritor nova-iorquino, que aqui assina o seu mais longo romance, na edição original, em hard-cover, são mais de 1000 páginas, enquanto na edição nacional, para não afugentar os potenciais leitores, diminui-se o tamanho da letra e enfiou-se muito mais linhas numa página, esquecendo-se como seria importante para o leitor atento e fan de Paul Auster, como é o meu caso, o livro ter precisamente “mil cento e trinta e três páginas com espaçamento duplo” (pag.867). Por outro lado Paul Auster irá trabalhar a partícula “se” / “If”, que tantas vezes altera o nosso quotidiano e que tantas vezes ao olharmos para o passado nos interrogamos sobre o caminho que decidimos tomar ao chegar à célebre encruzilhada da vida ou por vezes é um simples gesto ou palavra, que altera o rumo dos acontecimentos, de forma soberba. 

Em 1982/83 o dramaturgo britânico Alan Ayckbourn escreveu uma série de oito peças para os mesmos personagens, intitulada genericamente “Intimate Exchanges”, partindo desse princípio em que um simples acontecimento, por vezes fortuito, alterava o comportamento e a vida dos personagens que tinha criado e assim todas as peças se iniciavam da mesma maneira, mas tinham sempre desenvolvimentos e desfechos bem diferentes para esses eleitos habitantes do Yorkshire, nascidos da sua escrita e o êxito foi tal que ultrapassou fronteiras e terminou por ser levado ao cinema pela mão do cineasta francês Alain Resnais, nascendo o conjunto memorável desses dois filmes intitulados “Smoking” / “No Smoking”, que contou na escrita do argumento cinematográfico com a célebre dupla Jean-Pierre Bacri/Agnès Jaoui de “O Gosto dos Outros” / “Le Gout des Autres”. 

Paul Auster, neste seu fabuloso “4, 3, 2, 1”, decidiu oferecer ao seu protagonista quatro destinos diferentes e uma bela surpresa no final deste inesquecível romance, por onde passa a história da América, desses anos sessenta e setenta, que cada vez mais estão a ser apagados da memória colectiva. Mas regressando ao romance de Paul Auster, apresento a minha sugestão de leitura de “4, 3, 2, 1”, porque tal como sucede com o fabuloso “Quarteto de Alexandria” / “The Alexandria Quartet” (1962) de Lawrence Durrell, que nos oferece diversas possibilidades de leitura nos quatro volumes que constituem a obra, devendo no entanto iniciar-se sempre com “Justine”, já no livro de Paul Auster tudo se inicia em “1.0”, para descobrirmos como o judeu russo Reznikoff chegou no ano de 1900 à América e como um pequeno lapso terminou por transformar o seu apelido em Fergusson. 

Depois o escritor oferece-nos a vida desta família desdobrada por quatro, fruto desse destino que irá marcar o percurso dos diversos protagonistas do romance e assim a minha sugestão de leitura dos capítulos é de os lerem não em sequência, mas acompanhando em separado cada uma das 4 vidas de Archie Fergusson: 

Fergusson 1 – Capítulos 1.1; 2.1; 3.1; 4.1; 5.1; 6.1; 7.1. 
Fergusson 2 – Capítulos 1.2; 2.2. 
Fergusson 3 – Capítulos 1.3. 2.3; 3.3; 4.3; 5,3; 6.3. 
Fergusson 4 – Capítulos 1.4: 2.4: 3.4: 4,4: 5.4; 6.4; 7.4. 

Ao longo deste fabuloso romance o leitor, se for fan de Paul Auster, irá descobrir diversos traços biográficos do escritor com a personagem de Archie Fergusson, seja no gosto pelo cinema, como nas referências literárias, passando por essa cidade de Paris onde Paul Auster viveu durante alguns anos e depois temos sempre o encontro de uma das personagens da célebre “A Trilogia de Nova York” / “The New York Trilogy”, que tornou famoso Paul Auster e que reunia três novelas suas, algo que irá suceder com os primeiros escritos do Fergusson escritor. 

Mas se quer conhecer melhor este livro antes de o ler, deixo o convite para verem a emissão de “La Grande Librairie”, apresentada por François Busnel, na qual Paul Auster é o convidado principal, para além da sua esposa e escritora Siri Hustvedt, o escritor francês Philippe Delerm, que escreveu um livro sobre Lisboa e essa maravilhosa actriz chamada Isabelle Carré, que nos fala do seu livro. No início desta emissão temos uma divertida apresentação dos convidados feita pelo actor Pierre Arditi. São cerca de 90 minutos memoráveis em que ficamos a conhecer um pouco melhor Paul Auster e onde se respira livros em todos os fotogramas! 

Rui Luís Lima

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