domingo, 17 de junho de 2018

Sam Shepard – “Crónicas Americanas” / "Motel Chronicles"



Sam Shepard 
"Crónicas Americanas" 
Difel, Pag. 184 

Quando a sua mulher Jessica Lange é entrevistada no seu rancho, Sam Shepard procura refúgio junto dos estábulos ou parte a cavalo para a colina mais próxima do sol. 

Este homem, nascido em Fort Sheridan, no estado do Illinois, é um dos maiores dramaturgos norte-americanos, sendo comparado por muitos a Eugene O’Neil. Para Frank Rich, ele é um profeta, amante da tecnologia e dos ambientes selvagens, bem patente nos seus contos, poemas, monólogos e peças de teatro. 

"esta gente aqui 
já é 
a gente 
que finge ser"

27/7/81 – Los Angeles/Sam Shepard 

Filho de um oficial da aviação, a sua infância, tal como a de Jim Morrison dos Doors, foi invadida pelo sentido nómada a que se encontravam ligados os pais. Ele mesmo referiu numa entrevista que as suas raízes intelectuais foram adquiridas na “cultura-auto” para adolescentes, através das cidades do sul da Califórnia. 

A sua obra apresenta no seu interior a nostalgia pelo velho Oeste: as planícies desertas, as águas dos rios frescas e cristalinas, o amor da solidão, o medo, o rock na estrada, os motéis, a família em desagregação, a amizade, os breves encontros e a dor dos sentimentos. 

Com mais de quarenta peças escritas, entre as quais “Burried Chield” que obteve o Pulitzer, Shepard acabou por chegar ao cinema. Mas muito antes navegara pelas águas do rock, tocando bateria ao lado de Bob Dylan e dos Molly Modal Rounders. O seu conto “Ritmo”, invadido pelo rock and roll, é a melhor referência ao movimento sincopado de bateristas como Ginger Baker ou Keith Moon. 

Em Portugal, Sam Shepard viu chegarem ao palco as peças “Loucos de Amor” encenada pela primeira vez em S. Francisco a 8 de Fevereiro de 1983 no Magic Theatre e a peça “Coração na Boca”, escrita de parceria com a cantora/poetisa Patti Smith, com quem vivia na época. 

Sam Shepard e o cinema encontraram-se pela primeira vez em “Deserto de Almas”/”Zabriskie Point” de Antonioni, no qual colaborou como argumentista. No entanto será com “Paris/Texas” de Wim Wenders, um “road-movie” nostálgico, que Sam Shepard irá alcançar a fama no Velho Continente. Os diálogos do encontro de Travis com Jane no Peep-Show são dos mais dolorosos e sinceros que alguma vez foram escritos para cinema e Wim Wenders, com a música de Ry Cooder, atingiu o estado-cristalino da sua criatividade. 

"A felicidade 
cai 
no lado errado 
da Sorte 

A felicidade 
cai 
longe das minhas mão. 

A felicidade 
despenha-se 
entre as árvores 

toda a gente se queixa."

2//7/81 – San Fernando Valley / Sam Shepard 

A estreia de Sam Shepard na Sétima Arte como actor, ocorreu no cult-movie de Terrence Malick “Dias do Paraíso”/”Days of Heaven” e mais tarde deu-se o encontro com a sua companheira Jessica Lange, em “Frances” de Greme Clifford, que narra a história de Frances Farmer, estrela cintilante dos anos trinta. Depois Philip Kaufman passou para o écran a epopeia de Tom Wolf “The Right Stuff”/”Os Eleitos”. O desempenho de Sam Shepard nesta película leva a Academia de Hollywood a nomeá-lo para o Oscar do Melhor Secundário, isto num filme em que não havia actores principais. 

Entretanto a sua ligação com a actriz Jessica Lange, de quem já tem dois filhos, leva-o a interpretar e produzir “Country”, reflexo da sua própria vida como fazendeiro e cujo objectivo era alertar os agricultores para a política agrícola nefasta do então presidente Ronald Reagan. 

A sua peça “Fool For Love”/”Loucos de Amor”, das mais conhecidas internacionalmente, foi adaptada ao cinema por Robert Altmann e, melhor do que ninguém, Sam Shepard vestiu a pele do cow-boy errante, que regressa à sua amada, uma Kim Basinger sensual e selvagem. Falou-se na altura numa relação escaldante entre ambos, durante as filmagens. 

Depois de “Loucos de Amor”, Sam teve três papéis secundários em películas medianas de reduzido interesse, caso de “Crimes do Coração” de Bruce Beresford, “Quem Chamou a Cegonha” de Charles Sheyer e “Flores de Aço” do veterano Herbert Ross. 

Entretanto Shepard passou para o outro lado da câmara e realizou “Ordem de Execução”, exibido em Lisboa apenas durante uma semana, numa sala deserta, e só com referências na imprensa depois da sua saída de cartaz, aliás as referências foram lamentações da crítica, porque ninguém viu a película. 

"desde a relva alta, alta 
até à esquina do parque 
vejo-te que me estudas 

eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar 
e cada olhar que te roubo 
deixa-me um dia mais novo 

Ultimamente tem sido difícil apanhar-te 
ou então sou eu que estou a ficar velho 
um dos dois está com certeza a perder"

6/11/81 – Homestead Valley/Sam Shepard 

Nos anos noventa continuou a surgir em papéis secundários em diversos filmes, numa média de três por ano e ainda escreve e realiza o seu segundo movie, um western intitulado “Silent Tongue”, com Richard Harris, Alan Bates e River Phoenix nos protagonistas... no novo século XXI manteve a média de aparições, sendo de destacar a sua interpretação em “Cercados”/”Black Hawk Down”. 

Sam Shepard é o último dos cow-boys, o homem que atravessou os anos sessenta com o rock, a poesia e o teatro no seu alforge; depois, quando desceu do cavalo, descobriu o cinema ao lado do saloon, conquistou a girl de “King Kong”, transformando-a na sua companheira para a vida, fazendo dela a mulher que todos admiramos e ele continuou as suas narrativas do velho Oeste com o Sol a Sorrir no Horizonte Feliz. 

“Crónicas Americanas” reúne poemas e contos escritos com a inevitável originalidade de Sam Shepard, onde as memórias navegam ao sabor da escrita. 

Rui Luís Lima

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