segunda-feira, 30 de julho de 2018

Marguerite Yourcenar - “Mishima ou a Visão do Vazio” / “Mishima ou La vision du vide”


Marguerite Yourcenar 
“Mishima ou a Visão do Vazio” / “Mishima ou La vision du vide” 
Relógio D’Água – Pág. 100 

Marguerite Yourcenar, a célebre escritora de “Memórias de Adriano”, que foi responsável pelo belo prefácio da edição francesa da célebre tetralogia “O Mar da Fertilidade” (4. Vols.) do escritor japonês Yukio Mishima, oferece-nos neste belo ensaio dedicado à sua vida e obra uma viagem inesquecível e fundamental, para conhecermos melhor este fabuloso escritor japonês, que bem merece não ser esquecido, aliás no fabuloso diário de Philippe Sollers “L’année du Tigre – Journal” (1998) ele refere, a dado passo, ter sido surpreendido ao saber que no Japão já ninguém lia Yukio Mishima, mas sim Kenzaburo Oe. Passado quase meio-século sobre a morte de Yukio Mishima (1970) talvez seja possível afirmar que Murakami é o escritor mais lido actualmente no Japão. 

Mas regressando ao que nos interessa, como muitos da minha geração, descobri Yukio Mishima através de um texto pulicado por António Mega Ferreira no JL, aquando da edição de “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”(Assírio e Alvim) e neste livro de Marguerite Yourcenar encontramos inicialmente uma abordagem à obra literária de Mishima, para assim melhor compreendermos o Escritor e só depois o Homem, revelando-se fundamental a leitura/conhecimento dos quatro volumes de “O Mar da Fertilidade”, obra derradeira do escritor e terminada por este na véspera do seu suicídio. 


Iremos assim viajar pela obra de Yukio Mishima através das palavras de Marguerite Yourcenar que, em certos momentos, é verdadeiramente poética, desde os primeiros tempos em que optou por ser escritor, recusando seguir os conselhos do pai, que pretendia que ele seguisse a carreira de funcionário público, até chegar a esse momento capital em que “Confissões de uma Máscara” lhe oferecem a fama no Japão. Já os célebres romances populares, que escreveu ao longo do tempo e que foram uma das suas fontes de sobrevivência económica, nunca foram traduzidos fora do Japão, como nos confirma Marguerite Yourcenar. Pessoalmente, durante alguns anos, ainda alimentei a esperança de os encontrar em versão francesa. 

De referir ainda a obra teatral de Yukio Mishima, que até é bem considerável, mas que nunca teve tradução portuguesa, que eu saiba, embora esteja disponível em francês, assim como esse volume, fundamental para o conhecermos ainda melhor, que reúne a sua correspondência com Yasunari Kawabata, que tal como Mishima se irá suicidar, precisamente um ano depois, embora tenha optado por uma morte bem diferente e “tranquila” (inalação de gaz), tendo confessado dias antes que tinha sido “visitado” por Yukio Mishima. 


“Mishima ou Uma Visão no Vazio” revela-se uma verdadeira pintura de cores bem vivas da vida do célebre escritor Japonês, que ambicionava que o reconhecimento literário obtido no seu país transpusesse as fronteiras do Japão, mas as suas visitas a Paris e à América, revelaram-se bastante frustrantes para Yukio Mishima e depois também descobrimos que certos biógrafos ocidentais, referidos por Marguerite Yourcenar, fizeram leituras bem desastrosas da sua vida, fazendo-me recordar uma inenarrável biografia de Sartre assinada por uma senhora americana, que tive a infelicidade de ler. 

Este livro de Marguerite Yourcenar é fundamental para conhecermos Yukio Mishima e a sua obra literária, verdadeiramente incontornável, no universo das letras e a sua leitura é mais do que recomendável, tal como o filme que Paul Schrader lhe dedicou e sobre o qual já escrevemos aqui. Por outro lado, se sofrer desse célebre complexo do politicamente correcto, recordo-lhe, para seu alívio, que um conhecido elemento da extrema-direita japonesa ameaçou o escritor de morte, após se ver retratado no livro “Depois do Banquete” (Relógio D’Água). 

Marguerite Yourcenar transforma este ensaio sobre Yukio Mishima num belo romance contemporâneo, sobre um dos maiores nomes do universo Literário! 

Boas leituras! 

Rui Luís Lima

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